Buscamos discutir a atuação da imperatriz Élia Pulquéria (399-453) no início da controvérsia nestoriana, até às vésperas da realização do concílio de Éfeso (431), tomando por base a construção de um espaço de poder próprio que podemos denominar, junto com Judith Herrin, de “feminino imperial”. Argumentamos que, por ser irmã do imperador Teodósio II (408-450) e a despeito de não exercer nenhum cargo público oficial, Pulquéria partilhava com seu irmão daquilo que chamamos de basileia – ou seja, a prerrogativa de exercer funções públicas de governo com base em preceitos de legitimidade dinástica. Todavia, indo contra o modelo tradicional de basileia feminina construída a partir da ideia de casamento e da geração de filhos, Pulquéria fez-se legitimar por meio de um voto de castidade público e do envolvimento com questões doutrinárias. No contexto da querela doutrinária sobre a Theotokos, a construção desse “feminino imperial” foi por vezes considerada pela historiografia recente como uma tentativa da imperatriz de se fazer associar à Virgem como um modelo de basileia feminino. À luz da documentação tanto presente nas ditas “atas do concílio de Éfeso” quanto na narrativa desses eventos por parte de Nestório (bispo de Constantinopla entre 428 e 431), defendemos que o protagonismo de Pulquéria e a construção de seu “imperial feminino” precisam ser contextualizados com base nas expectativas então vigentes sobre o papel das mulheres no espaço público ou sem perder de vista o funcionamento da construção das redes sociais e de influência no Império tardo antigo