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A virtude da “mulher adúltera”: Ibn Gabirol e a dignidade da matéria

Podemos dizer que a predominância da forma sobre a matéria – ontologicamente, em hierarquia e em dignidade – no pensamento medieval é quase unânime. Na maior parte das propostas medievais de compatibilização entre filosofia e religião, a matéria sensível foi vista como bastarda (já que sua origem raramente é explicitada), como fonte da imperfeição, da carência e da falha, e, por vezes, associada diretamente ao mal e ao pecado. A imagem da matéria como mulher pecadora de origem duvidosa está já presente em Ibn Sina e passa a Maimônides que, comparando-a à adúltera, afirma que, apesar de manter um vínculo marital com uma forma, não cessa de mover-se, buscando constantemente outra forma para substituí-la. Pelas particularidades de sua doutrina, Ibn Gabirol não teve problemas ao abordar essa questão, inclusive quanto a indicar a origem da matéria – tema evitado pela maioria dos filósofos – mas não sem despertar fortes críticas de seus leitores contemporâneos e ao longo especificamente em relação à matéria, levantamos aqui as seguintes: 1) matéria não é corpo; 2) a matéria inteligível não é essencialmente distinta da matéria sensível; 3) a matéria não é a fonte da diversidade e da multiplicidade; 4) a matéria provém diretamente da Essência de Deus. Portanto, ainda que Ibn Gabirol mantenha as qualidades que, por outros filósofos, foram entendidas como sendo o caráter volúvel dessa mulher – ou seja, o fato de que ela está sempre apta a receber muitas formas – nada há que desabone sua conduta.

Citação completa

CAVALEIRO DE MACEDO, Cecilia Cintra. A virtude da "mulher adúltera": Ibn Gabirol e a dignidade da matéria. VERITAS, Porto Alegre, v. 63, p. 9-25, 2018.